quarta-feira, agosto 29, 2001

25 de julho de 1995
Bom, ontem, foi um dia de cão. Trabalhei muito... e quando cheguei em casa, lá estava Luísa com seus olhos assustados, escondendo ou fingindo esconder do mundo suas dores. Ela havia apanhado e estava bastante machucada. Eu dei banho nela... ela está muito magra. As marcas das drogas estão por todo corpo... Eu fungava segurando o choro. Eu amo Luísa demais e é uma dor tão grande ver meu mundo encantado morto... talvez, este mundo mágico que faço uma força para reter em mim nunca tenha existido... Sei lá...
- Anda logo!
Eu fiquei muito braba!!! Tudo tem limite!
- Olha! Se você quer terminar este banho,fica quieta, ouviu, Luísa? Senão, você sabe muito bem onde é a porta!
Ela ficou quieta como sempre ficava quando tinha meus rompantes. Depois do banho, eu fiz um chá pra ela e esquentei a comida que a Ló tinha deixado pra mim. Ela comeu, vestiu uma roupa minha e se foi. Não consegui dormir, eu encarava o teto escuro em busca de estrelas que não existiam. Tentava lembrar a vida de antes e Luísa já tinha seus mistérios. Quando tínhamos 18 anos, eu sempre ia buscá-la bêbada e louca em festas. Talvez, por isto eu tenha me resolvido por ir embora, mas, as tias a mandaram para vir ficar comigo e foi o fim de tudo. Começamos a brigar por tanta coisa... uma vez, eu bati no rosto dela. E foi quando eu me dei conta, estávamos perdidas uma pra outra para todo sempre.
Então, hoje tomei coragem e fui atrás de Miguel. Ele precisava parar de dar dinheiro pra ela! Mas, se não fosse ele, outro daria por outros motivos. Mas, de algum modo doentio da minha mente pirada, eu precisava saber se ele pagava Luísa. Eu sabia de meninas que gostavam de se prostituir, que não se importavam, tudo por prazer e alegria e luxúria. Elas gostavam da vida fácil... mas, eu conhecia os olhos de Luísa e a alma dela e me fui arrastando-me até o suntuoso hotel. Liguei pro Pepe e ele disse animadamente para que não me preocupasse. Afinal, havia trabalhado até tarde ontem. Acordei tarde, almocei qualquer coisa, nervosa que estava...
Eu entrei no saguão do hotel, desafiando os ricos e os luxos com minha calça jeans surrada (comprada em qualquer lugar), minhas botas e minha camiseta e jaqueta de couro. Aproximei-me do balcão e pedi pra falar com ele. Então, eu ouvi a voz dele atrás de mim! Minhas deusas mágicas! Se meu coração fosse fraco, cairia desfalecida ali mesmo. Vi o brilho nos olhos de gato! Creio que ele achava que tinha me rendido aos seus encantos... mas, nunca! Não a ele... Eu disse, meio nervosa:
- Podemos conversar em particular? Tenho muitas coisas pra dizer....
Ele me levou para seu quarto. Sentei-me na ante-sala enquanto ele trazia uma garrafa de vinho, cara como ele gostava. Ele ofereceu. Diante do nervosismo, um sorriso maldoso e um sim! Os olhos brilharam mais ainda. Ele me tocou e eu senti todo o corpo tremer àquele simples toque. Mas, eu me fiz de forte! Nunca demonstrar fraqueza na jaula do inimigo... eu jamais darei este gosto a Miguel! Ele veio se aproximando como um lince, um gato manhoso...
- Por que você dá dinheiro a Luísa? Ela está se prostituindo?
Por um instante, ele se confundiu, desvencilhou-se de mim e me encarou com um sorriso.
- Foi ela quem lhe disse?
Fiquei muda, encarando-o... fixando meus olhos nos dele. Eu me levantei e antes que me fosse eu lhe disse:
- Luísa está doente e espero que você saiba que ela consome drogas com seu pagamento. Jä vi que toda decência se foi de você. Aliás, coisa que você nunca teve mesmo.
E fui embora, cabeça erguida, andar tranquilo e uma vontade louca, terrível de correr, ir embora... eu o deixei com as palavras ásperas. Não sei o que passou por ele. Mas, antes que o elevador chegasse, ele veio até mim, o bafo quente bem perto, o cheiro do vinho enebriante...
- Você nunca entendeu?
A porta do elevador se abriu e eu fui engolida... e eu tive a impressão de ver lágrimas nos olhos dele... apenas impressão. Monstros como ele não tem sentimento. Mas que porra! Será que nunca vou me livrar desta sensação de perdição total ao lado deste homem? Caralho! Que merda! Eu me odeio quando estou perto dele. Uma menina que mora no apartamento da frente uma vez o viu... Ela disse que se fosse ela já tinha se acabado na pica dele! Eu ri!!! Canalha!!!!
- Todos são, querida! Mas, você precisa aprender a jogar com a pica deles!
Eu ri, ela é muito desbocada! Bom, o apartamento dela era um desfile de homens maravilhoso e uma orquestra de gritos, sussurros e gemidos sem igual. Eu me limito a rir... Falando nisso, tem tempo que não vejo a Lu... Gostaria de ir me lamentar com ela. Lu me traz risos em meio a lágrimas. Ela diz que meu problema é que tenho afliceta por ele e o melhor jeito de acabar com isto é dando! Já estou rindo... a mera lembrança dela me dizendo as coisas já me anima o espírito e a alma. De Julio, ela só fica olhando. Morro de vergonha! Ele vira as costas e ela me incentiva!
Você só anda com o melhor do filé, hein, moça?
Mas, por mais que tente explicar a mágoa que tenho de Miguel... ela insiste que eu o desejo. É só afliceta! Bom, está tarde e preciso dormir.