segunda-feira, setembro 03, 2001

01 de agosto de 1995
Semana foda! Trabalho! Trabalho e trabalho!!! Pepe me enlouqueceu deveras... e as aulas vão começar a qualquer momento. Os dias passaram tão rápido que nem me dei conta do final de semana. Pepe diz que, às vezes, exagero no trabalho. A Lu diz que estou fugindo de alguma coisa... Eu sei que não quero voltar para a casa das minhas tias... ainda não estou preparada para encará-las...amo-as mas o jeito delas me perturbam... Tia Vivian é dominadora, uma mulher estonteante, preocupada com sua beleza mas também com sua profundidade espiritual. Tia Julia é mais doce, mais maternal, mas, intrometida. Sei que se preocupam comigo mas, no momento, quero apenas me formar. Pepe me fez procurar os documentos para eu registrar as fórmulas dos perfumes... ele disse que tenho futuro, mas, que é preciso tomar muito cuidado...
Uma vez, uma amiga de minhas tias leu a minha sorte. Eu me ri achando que elas estavam delirantes por causa do vinho até ver os olhos de tia Vivian... ela disse que eu só seria feliz no amor com um homem. Imagina! Eu?! E um homem? Prezo minha liberdade mais que tudo!!! Gosto de sexo, mas, não quero me sentir presa a ninguém... quero viver minha vida em paz... o que me faz lembrar que preciso ir na casa de praia...Ah! Num estou a fim de escrever...

quarta-feira, agosto 29, 2001

25 de julho de 1995
Bom, ontem, foi um dia de cão. Trabalhei muito... e quando cheguei em casa, lá estava Luísa com seus olhos assustados, escondendo ou fingindo esconder do mundo suas dores. Ela havia apanhado e estava bastante machucada. Eu dei banho nela... ela está muito magra. As marcas das drogas estão por todo corpo... Eu fungava segurando o choro. Eu amo Luísa demais e é uma dor tão grande ver meu mundo encantado morto... talvez, este mundo mágico que faço uma força para reter em mim nunca tenha existido... Sei lá...
- Anda logo!
Eu fiquei muito braba!!! Tudo tem limite!
- Olha! Se você quer terminar este banho,fica quieta, ouviu, Luísa? Senão, você sabe muito bem onde é a porta!
Ela ficou quieta como sempre ficava quando tinha meus rompantes. Depois do banho, eu fiz um chá pra ela e esquentei a comida que a Ló tinha deixado pra mim. Ela comeu, vestiu uma roupa minha e se foi. Não consegui dormir, eu encarava o teto escuro em busca de estrelas que não existiam. Tentava lembrar a vida de antes e Luísa já tinha seus mistérios. Quando tínhamos 18 anos, eu sempre ia buscá-la bêbada e louca em festas. Talvez, por isto eu tenha me resolvido por ir embora, mas, as tias a mandaram para vir ficar comigo e foi o fim de tudo. Começamos a brigar por tanta coisa... uma vez, eu bati no rosto dela. E foi quando eu me dei conta, estávamos perdidas uma pra outra para todo sempre.
Então, hoje tomei coragem e fui atrás de Miguel. Ele precisava parar de dar dinheiro pra ela! Mas, se não fosse ele, outro daria por outros motivos. Mas, de algum modo doentio da minha mente pirada, eu precisava saber se ele pagava Luísa. Eu sabia de meninas que gostavam de se prostituir, que não se importavam, tudo por prazer e alegria e luxúria. Elas gostavam da vida fácil... mas, eu conhecia os olhos de Luísa e a alma dela e me fui arrastando-me até o suntuoso hotel. Liguei pro Pepe e ele disse animadamente para que não me preocupasse. Afinal, havia trabalhado até tarde ontem. Acordei tarde, almocei qualquer coisa, nervosa que estava...
Eu entrei no saguão do hotel, desafiando os ricos e os luxos com minha calça jeans surrada (comprada em qualquer lugar), minhas botas e minha camiseta e jaqueta de couro. Aproximei-me do balcão e pedi pra falar com ele. Então, eu ouvi a voz dele atrás de mim! Minhas deusas mágicas! Se meu coração fosse fraco, cairia desfalecida ali mesmo. Vi o brilho nos olhos de gato! Creio que ele achava que tinha me rendido aos seus encantos... mas, nunca! Não a ele... Eu disse, meio nervosa:
- Podemos conversar em particular? Tenho muitas coisas pra dizer....
Ele me levou para seu quarto. Sentei-me na ante-sala enquanto ele trazia uma garrafa de vinho, cara como ele gostava. Ele ofereceu. Diante do nervosismo, um sorriso maldoso e um sim! Os olhos brilharam mais ainda. Ele me tocou e eu senti todo o corpo tremer àquele simples toque. Mas, eu me fiz de forte! Nunca demonstrar fraqueza na jaula do inimigo... eu jamais darei este gosto a Miguel! Ele veio se aproximando como um lince, um gato manhoso...
- Por que você dá dinheiro a Luísa? Ela está se prostituindo?
Por um instante, ele se confundiu, desvencilhou-se de mim e me encarou com um sorriso.
- Foi ela quem lhe disse?
Fiquei muda, encarando-o... fixando meus olhos nos dele. Eu me levantei e antes que me fosse eu lhe disse:
- Luísa está doente e espero que você saiba que ela consome drogas com seu pagamento. Jä vi que toda decência se foi de você. Aliás, coisa que você nunca teve mesmo.
E fui embora, cabeça erguida, andar tranquilo e uma vontade louca, terrível de correr, ir embora... eu o deixei com as palavras ásperas. Não sei o que passou por ele. Mas, antes que o elevador chegasse, ele veio até mim, o bafo quente bem perto, o cheiro do vinho enebriante...
- Você nunca entendeu?
A porta do elevador se abriu e eu fui engolida... e eu tive a impressão de ver lágrimas nos olhos dele... apenas impressão. Monstros como ele não tem sentimento. Mas que porra! Será que nunca vou me livrar desta sensação de perdição total ao lado deste homem? Caralho! Que merda! Eu me odeio quando estou perto dele. Uma menina que mora no apartamento da frente uma vez o viu... Ela disse que se fosse ela já tinha se acabado na pica dele! Eu ri!!! Canalha!!!!
- Todos são, querida! Mas, você precisa aprender a jogar com a pica deles!
Eu ri, ela é muito desbocada! Bom, o apartamento dela era um desfile de homens maravilhoso e uma orquestra de gritos, sussurros e gemidos sem igual. Eu me limito a rir... Falando nisso, tem tempo que não vejo a Lu... Gostaria de ir me lamentar com ela. Lu me traz risos em meio a lágrimas. Ela diz que meu problema é que tenho afliceta por ele e o melhor jeito de acabar com isto é dando! Já estou rindo... a mera lembrança dela me dizendo as coisas já me anima o espírito e a alma. De Julio, ela só fica olhando. Morro de vergonha! Ele vira as costas e ela me incentiva!
Você só anda com o melhor do filé, hein, moça?
Mas, por mais que tente explicar a mágoa que tenho de Miguel... ela insiste que eu o desejo. É só afliceta! Bom, está tarde e preciso dormir.

domingo, agosto 26, 2001

23 de julho de 1995
Acabei de tomar banho para tirar o pó, a terra, pra cuidar do cabelo que nem tinha brilho. ERa só terra. O Julio me levou pra acampar... foi divertido.. num tinha aonde tomar banho! Fiquei insana... se tem uma coisa que um lugar tem que ter é banho, chuveiro... qualquer coisa. Ele veio de moto e eu fui segurando na cintura dele, sentindo os músculos, o corpo... só de tocá-lo eu fiquei louca... quase pedi pra ele parar no meio da estrada e me beijar e me possuir! Mas, deixei quieto, a viagem era meio longa e perder tempo significava que era menos tempo no lugar em que ele me levou. O único incoveniente da moto era não poder cochilar, mas, foi bom sentir Julio perto. Tinha tanto tempo desde a última vez que o vi... a química entre nós é uma coisa que nunca entendi. Mas, é um amor tão legal que nem me importo. Quando ele vem, é sempre bem vindo. Gosto de quando ele está por perto, quando ele me abraça e me protege. Mas, ele é inconstante, nunca sei aonde ele está, de onde vem e ele sempre me acha, mesmo quando me mudo. Ele diz que a bússula dele é o meu coração que vibra junto com o dele!
Bom, então, ele parou em um planalto, um lugar alto. Era fim de tarde, um dos mais espetaculares do mundo. Eu me sentei extasiada. Ele se sentou atrás de mim, fazendo massagem e disse:
- É maravilhoso aqui, num é?
Eu fiquei muda e me encostei nele. Ficamos assim longamente. Ele fez comida... num sei como ele conseguiu fazer um prato de culinária rebuscada ali... mas, fez com vinho e tudo. Coisas de Julio... coisas que amo neste homem! A primeira vez que Julio me levou pro mato, Augusto estava junto. Nös nos encaramos e ficamos juntos por dois anos... Não, hoje, eu não quero falar de problemas de dores e de mortos. Bom, enfim, jantamos e rimos, falamos dos bons tempos, dos anos de amizade. Quando Augusto apareceu, um silêncio se fez presente. Ambos amávamos muito Augusto... dois anos mágicos da minha vida. O melhor amigo de Julio... ele se aproximou de mim e me abraçou. Nós nos abraçávamos, buscando um no outro um ombro porque ainda doía o fato de Augusto ter morrido. Bom, ele arrumou o saco de dormir e eu pedi pra dormir com ele. Augusto fazia falta. Eu tirei a roupa e me enfiei no saco de dormir. A noite eram diamantes perfeitos na escuridão mágica do céu acima de nós. Então, nós nos beijamos... eu senti falta daquele beijo e fizemos amor no mato! Ai... eu ainda o sinto em mim, o cheiro, os beijos, os toques da mão dele Caramba! Aquele homem é fora de série. Alina iria ficar uma fera caso soubesse disso! Só que foi ela que escolheu um casamento conveniente com um cara estável de grana. Alina era irmã de Augusto...
Foram dois dias mágicos com Julio! Fomos a uma cachoeira e o dia passou rápido! Tudo passou rápido. Quando ele parou a moto na porta de casa, um encanto se quebrou. Eu voltei para a minha realidade... e bateu uma saudade ali. Ele segurou minha mão e me puxou para um abraço, tirou o capacete. Quando ele me encarou com aquele céu escuro de estrelas dele... eu quase me agarrei nele e fui embora com ele.
- Leo, tem uma coisa que sempre guardei pra dar a você... mas, eu nunca tive a coragem de Augusto! Não quero que isto pareça um pedido porque...
Eu coloquei os dedos em seus lábios e o beijei.
- Também amo você! E sei que num é pra ficarmos juntos. Então...
Ele colocou o anel em meus dedos e partiu. Veio uma carta que está aqui e não canso de lê-la... Que dia maravilhoso! Que glória!!! Uma pena que nossos destinos não estejam cruzados... o que me faz lembrar que preciso ir na casa da praia, onde eu e Augusto... melhor deixar como está para não estragar minha felicidade plena e completa... por uns momentos, quero ser alienada e sorrir e achar que o mundo é belo.

sábado, agosto 25, 2001

21 de julho de 1995
Nooooossa, esta semana voou... nem vi o tempo passar. Estou trabalhando em uma nova fragrância de perfume com lavanda. Nunca pensei que fosse complicado achar alfazema por aqui. Mas, está tudo dando certo. Achei um lugar que tem a planta. Toda ela é cheirosa. Tem até uma folhinha aqui!!! Uma delícia... adoro cheiro de alfazema! É muito bom. Minha avó costumava colocar uns ramos na janela. Ela dizia que era pra eu dormir bem. Eu adorava. Ela tentou o máximo possível fazer um lar aconchegante para mim e Juan. Pena que ela fosse tão dura e rígida! Eu a amava e a odiava. Aprendi muito com ela... Ela me aparece nos sonhos quando me sinto vazia, sozinha e abandonada... e ela não mudou muito! Uma graça, embora, esteja mais amável que era quando viva.
Nunca converso dessas coisas com ninguém... as pessoas passam a me achar louca e estranha. É um segredo que guardo profundamente. Eu assusto as pessoas quando falo que vejo e converso com pessoas mortas... minha avó, Aurora, disse que há pessoas que compreende. Tia Julia e tia Vivian dizem que os espíritos aparecem pra elas também. Creio que isto é uma maldição!!! Odeio ver gente entrando e saindo o tempo todo sem saber se são vivos ou mortos.
Uma vez, uma menina, que eu conhecia, entrou na biblioteca e ela estava acompanhada. Íamos estudar juntas... daí, eu a cumprimentei e cumprimentei um garoto que estava do lado dela. Então, ela me encarou como se eu fosse louca:
- Com quem você está falando?
- Ué, com o seu amigo do lado.
- Num tem ninguém comigo aqui!
Mas, o menino se sentou do lado dela e ficava olhando pra mim e sorrindo. Eu não conseguia parar de olhar pra ele porque ele era bonito e instigante. A menina ficou olhando pra mim... ele conversava comigo. Era simpático.
- Sou o irmão dela... eu morri já tem um tempo. Mas, ela sente a minha falta... dá pra dizer pra ela que eu estou bem?
Eu fiquei atordoada. As pessoas já me achavam estranhas. E ele tinha aqueles olhos pidões adoráveis... juntei as minhas coisas rapidamente. Levantei-me e disse:
- Seu irmão, que morreu de acidente de carro, pediu pra dizer que está bem.
E fui embora. Nunca mais a vi e a evitava. Depois, ela desistiu de tentar conversar comigo.
Agora, evito falar sobre estas coisas... só com pessoas que me conhecem muito bem. Pepe me perguntou o que eu achava de espíritos e tal. Fiquei intrigada e quieta, muito quieta. Pepe suspirou, olhou-me profundamente e calou-se. Talvez, tenha reparado o quanto fiquei sem jeito com a pergunta. Sei lá... Pepe adora meus perfumes, as coisas que crio em seu laboratório... O telefone está tocando.
Ai! Meus Deuses, minha Musa Inspiradora!!! Julio está na cidade... oba! Sexo à vista!!! Já não era sem tempo, estava na maior secura do mundo... Bom, deixa eu me arrumar que ele vai passar aqui.
18 de julho de 1995
Estou cansada... o sanduíche que fiz pra mim aguarda-me. Tem um refri também. Vou comendo, escrevendo e bebendo. Hoje, eu vi meu irmão. Nós almoçamos juntos e foi tão rápido. Dei um grande abraço nele. Conversamos como sempre. Ele fez meu dia e eu fiquei leve e feliz. Ele está namorando e já está partindo de novo. Puxa... ele sempre fica por tão pouco e a saudade aperta sobremaneira. Paciência! Meu dia foi perfeito até o fim da tarde. Estava andando por aí, Pepe me liberou hoje das minhas obrigações com ele.
Então, estava sorridente, cheia de energia feliz e alegre. Então, resolvi passar num hotel aconchegante para tomar um chocolate quente com muito chantilly. É um desses hotéis aconchegantes e agradáveis, que chamam a gente por ter um calor próprio, as mesas têm velas e o ambiente é muito bom... quase na penumbra. Bom, depois que deixei meu irmão, fui para um shopping, comprei um livro novo. Então, lá estava eu com um punhado de pão de queijo à minha frente, um chocolate quente e um adorável livro. Peguei uma mesa de canto que é onde tem os sofás macios... Eu estava em paz, curtindo meu livro com um sorriso. Estava me familiarizando com as personagens quando eu vejo um homem de terno sóbrio do lado. Baixei o livro e encontrei os olhos de Miguel... senti o corpo gelar (como sempre e é uma merda isto!)
- Oi! Como vai, Leonora?
Ele foi puxando a cadeira e foi se sentando sem que eu pudesse sequer protestar.
- Oi, Miguel!
E sorri! Tonta, estúpida, idiota!!! Eu sou uma puta vagabunda!!! Como é que eu dou um sorriso pra este puto? Eu queria mandar ele pra puta que pariu... mas, fiquei lá encarando os olhos de gato, os olhos de mel que me prometiam amor... FILHO DA PUTA!
- Que faz aqui?
Ele zombava de mim porque era um hotel caro, pra gente rica como ele... eu poderia ter respondido: Virei puta! Vim atender um cliente!!! Nãoooooooooooo! O que a idiota responde?
- Vim tomar um chocolate quente! Ganhei o dia de folga. E você?
- Estou viajando a negócios. Você sabe que nunca venho aqui.
Então, o que este puto estava fazendo aqui há uns dias atrás? Daí, eu vi ele e Luísa juntos. Filho da puta! Ele ainda estava comendo Luísa! Provavelmente, ele pagava as drogas dela. Era com ele que ela arrumava dinheiro. Merda! Odeio quando as imagens chegam pra mim assim.
- Sei...
Um garçom passou e ele pediu um uísque.
- Você quer, Leonora?
Zombou de mim de novo!
- Não. Eu prefiro o chocolate quente. Assim que acabar, eu vou embora.
Eu me sinto tão diminuída perto dele, tão pequena... ele faz com que eu me sinta mal! Ele pediu a garrafa e deixou ela em cima da mesa.
Eu o encarei sem graça. Eu não cabia no mundo de riqueza dele. Eu sempre fui muito diferente. Minhas ambições nunca foram ter poder... dinheiro. Lógico que quero ter uma vida decente, o suficiente para eu me virar.
- Janta comigo?
- Não posso... Julio me espera para jantar.
Eu vi chamas brilharem em seus olhos... Isso me divertiu muito. Julio foi o primeiro homem da minha vida e ele sabe disso. Eu fico rindo e zombando dele por dentro. Meus momentos de paz e sossego haviam sido perturbados por um gato preto muito astuto e traiçoeiro.
- E Carol? Por que não janta com ela?
Eu provocava a ira dele. Mas, ele havia estragado meu dia mesmo... então, num era problema nenhum provocá-lo! Ele deu de ombros. E me pareceu que ele envelheceu tanto tempo naquele dar de ombros...
- Você não sabe a verdade, não é?
Engoli o chocolate quente, queimando a língua e a garganta, chamei o garçom e ia pagar a conta.
- Deixa que eu pago.
Saí correndo e voltei para casa. As lágrimas me queimam o rosto... por que eu me importo ainda? Tem tanto tempo que tudo aconteceu e aqueles olhos ainda me incomodam. O sanduíche num desceu porque meu estômago está embrulhado... está ali no prato me encarando: decifra-me ou devoro-te! Eu vou devorar você! Mas, a dor e as lágrimas não me deixam. Vou me deitar um pouco, remoer um pouco e tentar deixar de lado. Coisa impossível de se fazer... a solidão machuca, às vezes. É quando eu grito pela minha mãe... mas, eu num tenho mais mãe... e é quando as lágrimas são mais doloridas. Num tenho nenhum colo. Vou dormir.

sexta-feira, agosto 24, 2001

17 de julho de 1995
Segunda-feira chata... fui lá no laboratório do Pepe para desenvolver as fórmulas. Ele não estava. A gente faz umas trocas, quando as coisas apertam pro lado dele eu dou uma força e em troca, ele me deixa usar o laboratório. Normal... bom, estou cansada. Meu irmão me ligou. É engraçado que, apesar de sermos gêmeos, somos tão diferentes... fisicamente, até nos parecemos. Quando éramos crianças, Juan e eu costumávamos ficar de frente um para o outro tentando ver em que éramos diferentes (além, claro dos detalhes óbvios). Sempre sei quando ele vem me visitar ou quando está mal. Juan é fotógrafo e vive viajando por aí. Já foi preso, sequestrado... cada coisa! Credo! Loucura total... quero é paz e tranquilidade. Uma vez, ele me levou para uma de suas aventuras. Nunca mais me embrenho em mato com ele. Subi na moto e lá fomos nós... Nunca mais! Eu cheguei imunda, de lama da cabeça aos pés, toda estourada. Minha coluna doía... Mas, eu não falei que era tipo um enduro? Não! Ele me arrasta pras coisas e não avisa. Porque se ele falasse eu não iria... Mas, eu adoro o meu irmão. Ele é a coisa mais próxima que posso guardar de nossos pais.
Engraçado que não sinto a morte dos meus pais com uma dor profunda... mas, quando lembro do abraço terno da minha mãe, o coração aperta demais. Eu consigo me lembrar de quando eu tinha 3 anos de idade e ela me abraçava com força como se tudo eu fosse sumir de uma hora pra outra. Ela fazia a mesma coisa com Juan. Ela nos abraçava com força, um de cada vez. E houve um último abraço, um suspiro. Estávamos na praia... minha mãe passou a mão em meus cabelos e nos cabelos de Juan. Olhou-nos ternamente e nos abraçou com uma força descomunal e disse: Eu amo vocês demais! Apóiem-se neste amor quando a vida for dura com vocês, está bem? Já estávamos mais velhos... uns sete anos de idade. Joana já tinha 15 anos. Meu pai sempre andava abraçado à minha mãe enquanto eu e Juan corríamos na frente apostando corridas. Joana cuidava de sua própria vida. Foi, então, voltando pra casa que o carro em que estávamos foi arrebentado por um caminhão. Meu irmão e eu sobrevivemos porque dormimos no banco do carro... mas, apenas nós dois sobrevivemos. Quando olho para Juan, eu me lembro do meu pai. Ele é igual ao meu pai, fisicamente. Ou, talvez, eu queira que seja porque eu quero reter em minha mente meu pai. Eu não sei. Sinto falta do amor que havia em nossa família, da harmonia. Por mais que minhas tias amassem a gente... num era a mesma coisa que o abraço da minha mãe, o calor do corpo dela. O meu pai era a pessoa que nos explicava a vida de um ponto de vista lógico, que nos tratava como crianças, mas, não crianças apenas. Ele sabia que havia um algo mais dentro de nós, que em nossas mentes criativas tinham estrelas brilhando e cometas passeando... estrelas que podiam se transformar em galáxias com o empurrão certo.
De certa forma, foi meu pai que incutiu em mim este amor que tenho em desvendar o mundo das ervas e plantas que a minha avó me ensinou... Ela ficava uma fera quando eu pegava as plantas e começava a questionar as coias... eu quero unir o conhecimento que avó deu e o conhecimento que o papai me ensinou... Pelos Deuses... era pra falar do meu dia e estou delirando sobre o que já passou, sobre as águas que passaram. Mas, é que o Juan me ligou hoje e ele é o amor que tenho, a alegria dos tempos infantis que preservo com todas as forças de mim. Porque é o que me mantém seguindo, apaser de tudo... o amor entre nós. Só de pensar no Juan, meu dia se torna melhor.
Talvez, eu romantize demais a nossa relação... talvez, eu queira ver assim já que tudo à minha volta parece morto. Meu coração está morto. Bom, 4 horas da tarde... vou tomar um banho e ir pra academia.
15 de julho de 1995
No outro dia, as coisas estavam confusas, fora de ordem. Isso é que dá escrever com sono. Mas, precisava fazer algo enquanto esperava Luísa acordar. Ela acordou com os pesadelos de sempre e me encarou com um misto de ódio e medo. Eu tentei chegar perto e ela gritou para que eu ficasse longe dela... para que eu a deixasse em paz para sempre. Nossa, que facada foda! Foda mesmo... é isso mesmo, difícil. Eu a amo demais e eu me pergunto em que momento da vida nós nos perdemos. Ela vinha com os olhos pretos e me encarava com toda sua sobriedade: Leonora, o que vamos fazer hoje? E ríamos e brincávamos e vivíamos felizes até Miguel aparecer.
As coisas boas da vida não duram pra sempre. Luísa está louca... as drogas acabam com ela. Não entendo como ela consegue se manter em pé... e nem entendo como ela ainda não ficou doente. As tias devem estar cuidando dela de alguma forma. Luísa sempre teve o olhar triste. Ela nunca sorria muito... Séria demais. Lamentável que os pais dela a tenham deixado. Ela sempre teve a alma sensível e eu sempre a protegia, mas, a gente não pode proteger os que ama pela eternidade. Uma hora, as pessoas voam de nós porque criaram asas e precisam ir pra longe. Mas, não gosto do rumo que a vida de Luísa tomou. Mas, só posso fazer as minhas preces e pedir aos deuses que cuidem dela. Ela partiu há muito tempo de minha vida... há tanto tempo que nem sei mais quando foi. Ela fugiu de casa, na verdade.
Foi depois de Miguel sacaneá-la. Ele jogava com as mulheres. Ele e Carol apostavam sobre a virgindade das meninas. Se ele conseguiria tirar ou não a virgindade das meninas. Até que ele chegou em mim... Mas, neste ponto, minha prima Luísa já havia perdido sua sanidade, sua delicadeza, seu jeito meigo. Miguel Navarro... ele me inspira uma série de sentimentos: amor, ódio, revolta, angústia, paixão... seus beijos me enlouqueciam... mas, o ódio sublimou tudo de bom que sentia por ele. Por que eu ainda penso neste filho da puta? Ele e Carol se casaram. Que sejam felizes. Embora, eu saiba que eles não são fiéis um ao outro... eles ainda jogam. Carol continua a puta que sempre foi. A prima distante de Miguel conseguiu tudo o que ela sempre quis com sexo, com sua sensualidade rebuscada, produzida, falsa! Se a alma dela pudesse ser lida, seria uma coisa negra, sem sentimentos... Deixa pra lá! Ela que se resolva. Eu tenho que cuidar da minha própria vida. Preciso me formar, estudar as fórmulas naturais para os cosméticos que estou fazendo. As plantas podem trazer coisas boas pra nós. No momento, estou trabalhando nos perfumes, que é o que as meninas da faculdade gostam mais. Procuro criar sempre um odor pessoal para cada uma delas. Dá uma tremenda trabalheira, mas, estou conseguindo me virar sem ter que usar a grana de ninguém, o que me deixa orgulhosa. Aprendi muita coisa com a minha avó, quando ela estava viva... Bom, depois que ela morreu, eu sonho com ela de vez em quando. Bom, tem alguém na porta.
Eu me formo este ano... tanta coisa pra fazer. As fórmulas
Tenho umas coisas pra dizer antes de começar este diário: estou passando para o computador as velhas páginas manuscritas dos anos passados.
Julho de 1995
Putz! O telefone tocou de madrugada... Delagacia de Polícia. Luísa se drogou de novo. E lá me fui, bêbada de sono atrás da minha prima louca. Puta que pariu! Luísa está num estado miserável... Ela dorme agora e eu escrevo... Medito e penso na minha vida... Há dez anos atrás Luísa era meiga e encantadora. Mas, seus olhos escuros sempre me mostraram sua dor... sua angústia... ela era uma tempestade, sempre foi... ela sofre deveras por tanto e tão pouco. Amo-a tanto. Embora cada um de nós tenha suas próprias dores, suas angústias e medos. Luísa não soube lidar com sua própria dor. Nem eu sei ainda...
Dia desses, encontrei Miguel... se eu pudesse arrancar meu coração ao encarar seus olhos! Pedi ajuda aos céus. Minhas pernas tremiam tanto... a força que aqueles olhos tem sobre mim é devastadora. Mas, eu me prometi que nunca, jamais em toda minha vida, Miguel chegaria perto de mim. Ele é uma erva daninha, bela (verdade seja dita) mas, perigosa e venenosa... se os espíritos não tivessem me mostrado a verdade, eu teria sucumbido como Luísa. Parte de sua dor vem porque Miguel a massacrou, levou-a para brumas densas e perdidas. Luísa jamais recuperou seu coração depois do que Miguel fez. A mim, ele nada fez e fez tanto... Prometeu tanto, disse tantas palavras de amor, que eu acreditei.
Já estou chorando de novo... ainda dói tanto lembrar dele comendo Carol na árvore. Pude jurar que ele me encarava nos olhos. Ele encostado na árvore. Carol com as pernas à volta dele,gemendo como uma cadela (que ela é). Ele parecia se divertir ao ver meus olhos.
As minhas pernas criaram raízes na terra... as lágrimas chegando, quando, o espírito que me levou lá, retirou-me daquele lugar onde enterrei meu coração. Quando voltei para a festa à fantasia, a maquiagem estava borrada, as coisas passavam lentamente por mim quando ouvi um barulho característico... Nossa, corri para os braços de Fernando e dei um pulo em seu pescoço. Ele me retirou de lá e me apresentou ao meu marido... tanta coisa já passou nestes 10 anos... tanta água... tanta dor... tanto medo e tantas vitórias. Lamento que Luísa tenha caído nestas armadilhas e me dói o coração... temos tantos sonhos e alguns deles se desfizeram.
Luísa ressona do meu lado. Estou aqui esperando pelos gritos de Luísa. ''E sempre assim. Eu a resgato. Ela dorme um pouco e logo ela grita apavorada. Ela nunca me disse, mas, eu sei que ela sonha com Miguel porque ela grita o nome dele e o solta imprompérios contra ele. Aproveito a noite para estudar. Estou estudando para trabalhar com as ervas e criar cosméticos naturais que sejam baratos e práticos... sonhos e mais sonhos. Estou cansada... tão cansada.
Eu tinha tantos sonhos com 15 anos. O primeiro Miguel destruiu... e os outros foram indo embora de mim tão aos poucos... Acho que me vou... Está na hora. Olho o relógio no pulso uma vez mais. 4 horas da manhã. Eu me pergunto porque ainda suporto. Minhas tias estão longe. Ainda bem! Será que elas sabem de Luísa? Elas sempre sabem de nós. Sempre souberam de uma forma que nunca compreendi. Luísa começou a gritar...